Prática clínica

Quanto tempo o médico gasta com o prontuário?

Os estudos que mediram isso com cronômetro chegam a quase metade da jornada. O que eles não sustentam é a promessa de corte que a indústria vende em cima desse número.

CA

Cassiano Assumpção

Fundador da Nobe

· 10 min de leitura

Gráfico de barra única repartindo a jornada do médico entre prontuário, tempo com o paciente e o resto do dia
A repartição medida por Sinsky e colaboradores em 2016, com cronômetro e observador na sala.

O que os estudos mediram, e o número que sai deles

Cerca de metade da jornada. Em observação direta de 57 médicos americanos de consultório, 49,2% do tempo foi para prontuário e trabalho de mesa e 27,0% para o contato direto com o paciente — quase dois para um.

O trabalho de referência é de Christine Sinsky e colaboradores, publicado no *Annals of Internal Medicine* em 2016. É um estudo de tempo e movimento: observadores treinados dentro do consultório, cronometrando o que o médico fazia, em quatro especialidades. Foram 430 horas observadas, e 21 dos participantes ainda preencheram diários das horas depois do expediente.

Os dois números que interessam estão acima. Vale reparar no que eles não dizem. Aquele 49,2% não é "tempo digitando": é prontuário mais trabalho de mesa, categoria que inclui receita, resultado de exame, mensagem, formulário de convênio. Separar a digitação do resto exigiria outro desenho de estudo.

Um ano depois, Brian Arndt e colegas atacaram a mesma pergunta por outro caminho, no *Annals of Family Medicine*: em vez de observador na sala, os registros de evento do próprio prontuário eletrônico, validados contra observação. Deu 355 minutos — 5,9 horas — dentro do sistema, num dia de 11,4 horas. Desses, 4,5 horas durante o expediente e 1,4 hora depois dele.

Duas metodologias diferentes, populações diferentes, e uma ordem de grandeza parecida. É o mais próximo de um consenso que esse assunto tem.

Por que não existe esse número para o Brasil

Porque ninguém publicou. Procurei e não encontrei estudo brasileiro que cronometre o tempo de documentação clínica. O que existe medido por aqui é a duração da consulta e o tempo de espera, que respondem a outra pergunta.

O melhor exemplo do que se mede no Brasil é o estudo de base populacional de Galvão e colaboradores na região metropolitana de Manaus, publicado em *Epidemiologia e Serviços de Saúde* em 2020: espera média de 125,4 minutos, consulta média de 52,5 minutos. A consulta durou, em média, metade da espera.

É um dado bom e não serve para o que estamos discutindo. Ele mede o intervalo entre entrar e sair da sala. Quanto desse intervalo virou registro, e quanto de registro sobrou para depois, o estudo não pergunta — nem deveria, porque não era esse o objetivo.

Então quando você vir "no Brasil, o médico gasta X minutos por consulta preenchendo prontuário", desconfie da origem. Nas vezes em que fui atrás, o número vinha de post de blog de fornecedor, sem amostra, sem método e sem citação — às vezes atribuído a um estudo americano que mediu outra coisa. Número sem origem circula porque é conveniente, não porque é verdade.

Isso deixa quem decide numa posição desconfortável, e é melhor admitir do que preencher com estimativa. Você tem evidência sólida de que a documentação come uma fatia grande da jornada em sistemas parecidos, e não tem o tamanho da fatia no seu consultório. A segunda parte só a sua clínica pode responder, e há uma forma barata de fazer isso — está no fim deste texto.

O que a IA mudou, segundo quem mediu

Menos do que se anuncia no tempo de nota, e mais do que se imagina na exaustão. O ensaio randomizado de 2025 achou 41 segundos de redução por nota num dos produtos testados e nenhuma diferença significativa no outro — enquanto os desfechos de burnout melhoraram nos dois.

Vale ler esse ensaio com atenção, porque ele é o desenho mais forte disponível. Um estudo pragmático randomizado alocou 238 médicos de 14 especialidades em três braços: dois escribas de IA diferentes e um grupo de controle sem ferramenta. O desfecho principal era o tempo registrado dentro da nota, medido pelo log do prontuário, não por questionário.

O resultado principal:

BraçoTempo por nota, antes → depoisContra o controle
Escriba A4min30 → 3min49−9,5% (p = 0,02)
Escriba B4min29 → 4min06−1,7% (sem diferença significativa)
Controle4min22 → 4min04
Ensaio randomizado com 238 médicos, dois meses de uso. O grupo sem ferramenta nenhuma também ficou mais rápido — o que é um bom lembrete de por que grupo de controle existe.

Quarenta e um segundos. Num produto; no outro, nada que se distinga do acaso. E repare na última linha: o grupo de controle encurtou 18 segundos sozinho, sem ferramenta alguma. Sem ele, qualquer um dos dois produtos poderia ter reivindicado a melhora inteira.

Agora a outra metade. No mesmo ensaio, quem usou qualquer um dos escribas relatou menos carga de tarefa e menos exaustão no trabalho, com significância estatística. E um estudo de melhoria de qualidade publicado no *JAMA Network Open* em outubro de 2025, com 263 clínicos em seis sistemas de saúde, encontrou queda de burnout de 51,9% para 38,8% dos participantes e cerca de 0,9 hora a menos de documentação fora do expediente por dia.

Junte as duas coisas e aparece um resultado incômodo para quem vende: o tempo dentro da nota mal se move, e a hora que sobra à noite se move bastante. Uma explicação plausível é que a documentação deixa de ser feita depois, em casa, e passa a acontecer durante o atendimento — o total muda pouco, o lugar onde ele cai muda muito. Isso é hipótese minha sobre resultados de terceiros, não conclusão dos autores.

Do lado do volume, a maior implantação publicada é a da Kaiser Permanente, relatada no *NEJM Catalyst*: 7.260 médicos e mais de 2,5 milhões de atendimentos em pouco mais de um ano. É evidência de que a coisa funciona em escala e de que os médicos continuam usando. Não é evidência de eficácia: não há grupo de controle, e a avaliação de qualidade citada no relato se apoia numa amostra de 35 transcrições.

Por que "80% menos tempo" não se sustenta

Porque nenhum estudo disponível chega perto disso, e a conta que a promessa exige não fecha. Para cortar 80% do tempo de documentação seria preciso que o médico não relesse, não corrigisse e não assinasse — e as três coisas continuam sendo dele.

Faça a conta com os números acima. Se a nota leva quatro minutos e meio e o melhor resultado randomizado tirou quarenta e um segundos, o corte foi de um décimo. Para chegar a 80% seria preciso eliminar a leitura do que a máquina escreveu, a correção do que ela entendeu errado e a conferência antes de assinar. Essas três etapas não são desperdício a ser otimizado: são o trabalho médico sobre um texto que alguém vai assinar e que pode virar peça de processo.

Escrevo isto tendo cometido o erro. A página inicial da Nobe já anunciou "80% menos tempo em documentação", ao lado de "3x mais contexto clínico organizado" e "96% de confiança na transcrição". Nenhum dos três tinha origem. O terceiro era pior que inventado: 96% não correspondia nem ao valor fictício que estava no banco de demonstração, que era 93,0% em todos os segmentos, idêntico, porque era constante de seed e não medição.

Tiramos os três. No lugar entraram fatos que o código garante e que dá para conferir abrindo o produto — quantos documentos saem de uma consulta, que tudo passa por revisão, que nenhum acesso ao prontuário fica sem registro. São afirmações mais chatas e têm uma vantagem: aguentam ser checadas.

A regra que eu adotaria como comprador é simples. Peça a fonte. Se o número de corte de tempo não vier com desenho de estudo, tamanho de amostra e grupo de comparação, ele é material de marketing — inclusive quando o vendedor sou eu.

Como medir isso na sua clínica em uma semana

Com o relógio do seu próprio prontuário e duas semanas de anotação. Você não precisa de estudo formal para saber se a documentação está comendo sua noite; precisa da sua linha de base antes de qualquer ferramenta entrar.

Um método pobre e suficiente, que qualquer consultório consegue rodar:

  1. **Escolha uma semana comum.** Nada de semana de férias, nada de mutirão. Se a semana for atípica, a comparação depois não vale.
  2. **Anote três números por dia:** quantos atendimentos, a que horas você fechou o último prontuário, e quantos minutos de documentação sobraram para depois do expediente. Três linhas num caderno servem.
  3. **Some a semana e divida.** Você terá minutos de documentação por atendimento e horas por semana fora do expediente. São essas duas as métricas que a evidência mostra que se movem — e elas se movem em direções diferentes.
  4. **Só então teste alguma coisa.** Duas semanas com a ferramenta, os mesmos três números, na mesma estação do ano.
  5. **Compare o que dá para comparar.** Se o tempo por nota cair pouco e a noite melhorar bastante, você reproduziu o achado dos estudos — e provavelmente é isso que vai acontecer.

Uma ressalva sobre o passo 4: duas semanas medem o efeito imediato, e não a curva de aprendizado. Ferramenta nova costuma piorar antes de melhorar. Se o resultado da primeira quinzena for ruim, vale repetir a medição um mês depois antes de decidir.

E se o resultado for que quase nada mudou, esse também é um resultado. Ele custou duas semanas de caderno e evitou uma assinatura anual.

Perguntas frequentes

Quanto tempo o médico gasta com prontuário, afinal?

Nos estudos americanos com medição direta, cerca de metade da jornada de consultório vai para prontuário e trabalho de mesa, e algo entre 5 e 6 horas por dia acontece dentro do prontuário eletrônico, incluindo mais ou menos uma hora e meia depois do expediente. Para o Brasil não há número publicado equivalente.

Existe estudo brasileiro sobre tempo de documentação clínica?

Não encontrei nenhum que cronometre documentação. O que existe mede duração da consulta e tempo de espera, como o estudo de base populacional de Manaus publicado em 2020. Números de "minutos por prontuário no Brasil" que circulam em blogs de fornecedores geralmente não trazem amostra nem método.

Escriba com IA reduz mesmo o tempo de documentação?

Reduz pouco o tempo dentro da nota — 41 segundos por nota no melhor braço do ensaio randomizado de 2025, e nada mensurável no outro produto testado. O que melhorou de forma consistente foi a documentação fora do expediente e os indicadores de exaustão.

Por que os anúncios falam em 70% ou 80% de redução?

Porque não há estudo dando isso. Cortes desse tamanho exigiriam eliminar a releitura, a correção e a conferência antes da assinatura, que são a parte do trabalho que continua sendo do médico. Peça sempre desenho de estudo, amostra e grupo de comparação.

Vale a pena medir antes de contratar uma ferramenta?

Vale, e é barato. Duas semanas anotando três números por dia dão a sua linha de base. Sem ela, qualquer melhora depois é impressão, e impressão é justamente o que o grupo de controle daquele ensaio mostrou que engana: quem não usou nada também ficou mais rápido.

Meça antes de decidir

Se for testar alguma ferramenta, meça a sua linha de base primeiro — inclusive contra a Nobe. Número de fornecedor não substitui a medida do seu consultório.

Ver como a Nobe documenta

Fontes

  1. 1.Allocation of Physician Time in Ambulatory Practice: A Time and Motion Study in 4 SpecialtiesSinsky C, et al. Annals of Internal Medicine, 2016;165(11):753-760. Consultado em 01 de agosto de 2026.
  2. 2.Tethered to the EHR: Primary Care Physician Workload Assessment Using EHR Event Log Data and Time-Motion ObservationsArndt BG, et al. Annals of Family Medicine, 2017;15(5):419-426. Consultado em 01 de agosto de 2026.
  3. 3.A Randomized-Clinical Trial of Two Ambient Artificial Intelligence Scribes: Measuring Documentation Efficiency and Physician BurnoutEnsaio randomizado com 238 médicos, 2025. Consultado em 01 de agosto de 2026.
  4. 4.Use of Ambient AI Scribes to Reduce Administrative Burden and Professional BurnoutOlson KD, et al. JAMA Network Open, 2025;8(10):e2534976. Consultado em 01 de agosto de 2026.
  5. 5.Ambient Artificial Intelligence Scribes to Alleviate the Burden of Clinical DocumentationTierney AA, et al. NEJM Catalyst, 2024;5(3). Consultado em 01 de agosto de 2026.
  6. 6.Tempo de espera e duração da consulta médica na região metropolitana de Manaus, BrasilGalvão TF, et al. Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2020;29(4). Consultado em 01 de agosto de 2026.